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A Vida Devagar: A Doce Transgressão do Ócio


O mundo lá fora corre como um trem-bala, em alta velocidade, celebrando a produtividade incessante. O meu novo mundo, aos 69 anos, escolheu o passo do jabuti. A regra é clara e o desejo é profundo: mais lentidão, ócio, contemplação, bordados e a liberdade de não precisar mais correr atrás do trabalho.

Tempo para desfrutar dos momentos diários: comer devagar, banho demorado, respirar fundo, meditar, conversar com amigos sem olhar para o relógio. Aprendi que o mundo não acaba se o WhatsApp não for respondido imediatamente; a maioria das pessoas pode esperar pela resposta, mas parece que, por anos, eu não podia.


A Exceção Deliciosa do Domingo


Mas a vida é feita de contradições deliciosas. No último domingo, cometi uma transgressão. Um crime delicioso: dei aula online na pós-graduação.

Fiquei satisfeita com a forma como tudo foi se encaixando até o final: teoria, vivências e música, e as falas do compartilhamento. Foi um prazer enorme estar naquele fluxo, na adrenalina de um trabalho que me move.

Ao final da tarde, encerrei e me despedi. A velha urgência tentou me pegar. Antes que a máquina me sequestrasse para outra atividade, com a agilidade de quem rouba, escapei do computador. Apertei o botão "Desligar" como uma adolescente, fugindo pelos fundos da escola, sentindo a brisa no rosto e um sorriso no canto da boca.


A Recompensa Açucarada


As ruas preguiçosas das tardes de Domingo em Mucugê testemunharam meus passos sorrateiros. Ninguém mais estava lá para ver o meu pequeno ato de rebeldia abraçando o ócio que eu mesma decretei. Andei com pressa pensando no sorvete que me havia prometido, no filme que aluguei para mais tarde, nas amigas... e, claro, nas calorias a mais que, sem dúvidas, iria ganhar.

Parei na sorveteria e dei o brinde prometido à minha criança, essa parte de mim que espera ansiosa por atenção e mimos. Permiti que ela sorvesse cada colherada com sua ânsia infantil, uma após outra, sem intervalo.

Uma gulodice estranha, quase febril, para quem defende a lentidão. Mas percebi: essa pressa pelo doce era a forma de acariciar a alma, uma compensação, talvez, pela frustração sutil de ter trabalhado num dia de descanso, quebrando minha própria regra de ouro. A criança interior precisava de um afago açucarado e imediato, e eu me dei esse direito.


A Sabedoria da Pausa


Aos 69 anos, descubro que a vida devagar não é sobre a ausência de ação, mas sobre a autonomia da escolha. É sobre ter o controle do próprio tempo. É sobre permitir o fluxo e o ócio, a regra e a exceção.

E na lentidão, ironicamente, é onde mais me sinto viva.


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