A dança, uma das formas mais antigas de expressão humana, transcende a simples movimentação do corpo. Ela é uma linguagem, uma conexão profunda entre o corpo e a mente, capaz de revelar emoções, histórias e símbolos ocultos.
Na arteterapia, a dança surge como um portal poderoso para a exploração do inconsciente e para o processo de cura.
Este artigo explora a dança na arteterapia, fundamentado em conceitos dos livros O Caminho do Imaginário de Alexandra Duchastel e Corpo Poético de Vera Lúcia Paes de Almeida, minhas leituras atuais, buscando compreender como o movimento pode transformar e integrar a experiência humana.

No capítulo "A Linguagem Corporal" de O Caminho do Imaginário, Alexandra Duchastel explora a ideia de que o corpo fala uma língua própria, uma linguagem não verbal que se manifesta através dos movimentos.
A dança, nesse contexto, é mais do que uma série de gestos; é uma forma de comunicação que expressa o que muitas vezes não pode ser dito em palavras. Na arteterapia, essa linguagem corporal é usada para acessar e expressar conteúdos emocionais e psíquicos que estão profundamente enraizados no inconsciente.
Duchastel destaca que, assim como os sonhos e os mitos, o movimento corporal carrega simbolismos que podem revelar aspectos ocultos da psique. Cada gesto, cada movimento, pode ser visto como uma metáfora, um símbolo que carrega significados profundos.
Através da dança, o corpo se torna um veículo para a expressão de sentimentos, pensamentos e experiências que podem ser difíceis de verbalizar. Essa expressão simbólica é essencial no processo terapêutico, permitindo que o inconsciente se manifeste de maneiras únicas e transformadoras.
Vera Lúcia Paes de Almeida, em Corpo Poético, oferece uma visão alquímica da dança, onde o movimento expressivo é visto como uma energia vital que conecta o ser humano ao universo.
Ela descreve a dança como um diálogo contínuo entre os opostos vitais, onde o corpo e a psique não estão separados, mas integrados em uma única realidade viva e dinâmica.
A dança, nesse contexto, é uma forma de despertar a consciência da unidade corpo-psique, permitindo que o indivíduo explore e compreenda as tensões e paradoxos internos através do movimento.
Paes de Almeida também faz uma ligação profunda com as ideias de Rudolf Laban, um pioneiro na análise do movimento, que vê o corpo como um todo orgânico integrado. Para ela, o movimento expressivo na dança é uma forma de diálogo criativo, onde as manifestações físicas e psíquicas se encontram e se revelam através da compreensão simbólica das imagens, sentimentos e sensações que acompanham o movimento espontâneo.
Foi através desse processo lúdico e criativo que me permiti explorar novas formas de ser e estar no mundo, criando novos significados a partir das tensões e paradoxos da vida: dançando e pintando minhas emoções.
Lecoq, em O Corpo Poético, e Paes de Almeida compartilham uma visão semelhante de que o corpo é um meio de expressão poética.
Na arteterapia, essa abordagem poética do corpo é fundamental para permitir que os clientes explorem e expressem sua criatividade de maneira autêntica.
A dança, sob essa perspectiva, não é apenas uma sequência de movimentos, mas sim uma criação artística em si mesma. Cada gesto é uma palavra, cada sequência é uma frase, compondo uma narrativa única que reflete a experiência interior do indivíduo.
Paes de Almeida acrescenta que o objetivo maior da dança como movimento expressivo é despertar a consciência da unidade corpo-psique, onde o corpo se torna uma realidade viva, complexa e em constante mutação. Essa visão vai além da simples expressão corporal, alcançando uma compreensão mais profunda de como o movimento pode criar novos significados e integrar as experiências humanas em um todo coerente e transformador.
Ao longo da minha carreira de dançarina, sentia que meus gestos pincelavam o ar deixando desenhos coloridos que iam se desfazendo, enquanto outros surgiam, numa sequência psicodélica de luzes coloridas.
A integração da dança na arteterapia junguiana oferece um caminho rico para o diálogo entre o consciente e o inconsciente. A dança, com sua capacidade de expressar o não dito, permite que o inconsciente se manifeste de maneiras surpreendentes e reveladoras.
No meu setting arteterapêutico, o movimento é utilizado como uma ferramenta para explorar conteúdos psíquicos, facilitar o autoconhecimento e promover a cura.
Também utilizo os princípios da psicossomática para dar voz e cores aos sintomas físicos, e assim eles revelam o que age secretamente nos bastidores da psique, trazendo à tona a verdade oculta.
Em termos práticos, a dança na arteterapia pode ser incorporada de várias maneiras.
Técnicas como a improvisação, a dança livre e o uso de músicas e ritmos variados são comuns. A improvisação permite que os clientes explorem seus movimentos de maneira espontânea, sem a preocupação de seguir regras ou padrões, o que facilita a expressão genuína do self.
A dança livre oferece um espaço para que os participantes se movimentem de acordo com seus sentimentos e emoções do momento, promovendo uma conexão mais profunda com suas experiências internas.
A dança é uma ferramenta poderosa para a cura emocional e psíquica. O movimento corporal pode ajudar a liberar emoções reprimidas, resolver traumas e superar bloqueios emocionais.
Na arteterapia, a dança facilita a reconexão com o corpo, promovendo uma integração entre corpo e mente que é essencial para o bem-estar físico e emocional.
Através do movimento, os clientes podem explorar seus sentimentos e experiências de maneiras que as palavras, muitas vezes, não conseguem alcançar.
A dança ajuda na educação das emoções desde a infância: o jogo de palavras com movimentos relacionados ensina, a crianças, jovens e adultos, a perceberem seus corpos enquanto sentem.
A dança na arteterapia é uma prática integrativa e transformadora, que utiliza o movimento corporal como uma forma de explorar o inconsciente, expressar emoções e promover a cura. Através da dança, os clientes podem se conectar com seu self interior, descobrir novas formas de se expressar e encontrar caminhos para a cura emocional e psíquica.
Como alguém que tem formação em dança, sempre integrei os movimentos em meu setting arteterapêutico, observando os benefícios profundos que essa prática oferece.
Ao longo dos anos, desenvolvi a técnica MAP ? Movimento, Arte, Palavra ? como uma abordagem para a prática consistente e aprofundada da arteterapia. Essa técnica combina o movimento expressivo, a criação artística e a verbalização, proporcionando um espaço seguro e criativo onde os clientes podem explorar e integrar suas experiências corporais e emocionais.
A técnica MAP é baseada na ideia de que o movimento, a arte e a palavra são três elementos essenciais para o processo de cura e autoconhecimento.
O movimento permite que o corpo se expresse de maneira espontânea e autêntica, a arte oferece um meio de externalizar e refletir sobre essas expressões, e a palavra facilita a compreensão e a integração dessas experiências.
Ao longo do tempo, tenho visto como essa abordagem ajuda os clientes a acessar camadas profundas de seu inconsciente, promovendo uma transformação significativa e duradoura.
Convido a todos a explorarem o potencial da dança na arteterapia e a se familiarizarem com a técnica MAP, permitindo que o corpo, a arte e a palavra se unam em um diálogo criativo e transformador.
??É através desse diálogo entre o corpo e a mente que encontramos a verdadeira cura, a transformação e o autoconhecimento.
Abraço carinhoso!
Pró Ana Rosa