builderall


Descubra o bordado na arteterapia: benefícios, simbolismos e como usar fios e retalhos para curar memórias e emoções.


Bordar é também bordar-se

Bordar não é apenas um gesto manual. É um encontro entre corpo, mente e alma. É um diálogo silencioso entre a materialidade do tecido e o mundo invisível das emoções.

Na arteterapia junguiana, o bordado se torna um território fértil para a expressão simbólica, permitindo que o cliente se conecte com memórias, histórias e afetos que não encontram fácil acesso pela via da fala. É um ato de costurar fragmentos internos, de transformar retalhos da vida em imagens concretas, carregadas de significado.

Este artigo explora o bordado como recurso terapêutico dentro da psicologia analítica, abordando seus benefícios, campo simbólico, aplicabilidade clínica, simbolismos e técnicas iniciais.


1. Benefícios do bordado na arteterapia


O bordado é uma atividade simples em sua execução, mas profunda em seus efeitos. Entre os principais benefícios terapêuticos, destacam-se:

  1. Atenção plena e estado meditativo ? O movimento repetitivo da agulha e do fio promove foco e relaxamento, ativando o sistema parassimpático.
  2. Integração psíquica ? Trabalhar com retalhos, linhas e objetos diversos convida à integração de partes fragmentadas do self, um processo ligado ao arquétipo da totalidade (Self).
  3. Acesso a memórias afetivas ? Tecidos, cores e texturas podem evocar lembranças da infância, histórias familiares e vivências passadas, abrindo portas para a elaboração simbólica.
  4. Regulação emocional ? A cadência lenta do bordado auxilia na diminuição da ansiedade, melhora a concentração e favorece o equilíbrio emocional.
  5. Empoderamento criativo ? Criar algo com as próprias mãos, mesmo que esteticamente simples, fortalece a autoestima e o sentimento de autoria.


2. Campo simbólico adequado para o bordado

O bordado encontra terreno fértil quando inserido em campos simbólicos que dialogam com:

Na psicologia analítica, o bordado se relaciona ao arquétipo da Tecelã, que aparece em mitos e contos como símbolo do poder criador e da habilidade de unir mundos ? consciente e inconsciente, passado e presente, dor e beleza.


3. A simplicidade operacional como riqueza terapêutica

O bordado não exige grande aparato técnico para ser iniciado. Um pedaço de tecido, uma agulha e um fio já são suficientes.

Na arteterapia, essa simplicidade operacional é uma grande vantagem, pois:

Essa é uma abordagem crucial: o objetivo não é fazer peças bonitas de artesanato, mas sim criar um espaço de expressão simbólica e de elaboração psíquica.


4. Simbolismos das cores e dos fios no bordado

Cada cor e cada fio carregam um campo arquetípico que pode ser explorado na arteterapia:

O fio é, por si só, um símbolo. Ele representa continuidade, ligação, destino e a própria linha do tempo pessoal. Trabalhar com fios diferentes (grossos, finos, de algodão, lã, metálicos) pode evocar sensações e associações distintas.


5. Aplicação na Linha da Vida para anamnese

O bordado pode ser uma ferramenta eficaz para representar a linha da vida durante a anamnese em arteterapia:


Esse recurso não só gera material rico para a análise simbólica, mas também permite ao cliente ver sua trajetória de forma concreta e integrada.


6. Aplicação de contos: ?O Quadro de Pano?

O conto ?O Quadro de Pano? (presente na tradição oral e recontado em versões para terapia narrativa) fala de uma mulher que borda sua história em um tecido, transformando cada vivência em imagem. Ao final, o bordado se torna um espelho da sua alma.

Aplicar esse conto em sessão, seguido de um exercício de bordado, potencializa:

Essa prática une imaginação ativa (ao ouvir o conto), expressão manual e reflexão simbólica.


7. O ponto do alinhavo como início

Para clientes iniciantes, o ponto alinhavo é o mais indicado para começar:

Na clínica, o alinhavo pode ser usado para representar primeiros passos, marcos iniciais ou estruturas básicas que sustentam algo maior. É um ponto de passagem entre o caos criativo e a forma organizada.


8. A abordagem junguiana sobre bordado, tecelagem e fios

Carl Gustav Jung compreendia a criação manual como uma forma de dar corpo ao inconsciente, possibilitando a expressão simbólica de conteúdos que não emergem na linguagem verbal.

A tecelagem e o bordado aparecem como metáforas do processo de individuação:

Na mitologia, as Deusas Tecelãs não apenas criam, mas também medem e cortam o fio ? lembrando-nos de que toda obra é impermanente, e que a vida se refaz a cada novo ponto.


9. A função pensamento no bordado

Segundo Jung, a função pensamento organiza e estrutura as experiências, atribuindo-lhes lógica e coerência.

No bordado, essa função se manifesta na:


Mesmo sendo uma prática simbólica e sensível, o bordado também treina a função pensamento, ajudando clientes dispersos ou ansiosos a desenvolverem planejamento e foco.


10. Bordar sentimentos e memórias

Bordar é, muitas vezes, bordar memórias. Cada ponto pode conter um afeto, uma lembrança, uma saudade.

Na clínica, isso pode ser usado para:


O bordado se torna, assim, um diário têxtil, onde o tecido é a página e os fios são palavras invisíveis.


O bordado como obra viva

Na arteterapia junguiana, o bordado é mais do que técnica. É alquimia: transforma matéria e alma simultaneamente. É ritual: cria um espaço sagrado de atenção e presença. É narrativa: conta histórias sem depender da fala.

E, talvez, seja também um lembrete: assim como um tecido se sustenta pelo entrelaçar dos fios, nós também nos sustentamos pelas conexões que fazemos ? com os outros, com a nossa história, e com o mistério que nos tece.


Leia também: Tecelagem como linguagem simbólica na arteterapia

Assista ao vídeo completo aqui(69) Bordado na Arteterapia: Como Fios e Retalhos Podem Curar e Transformar - YouTube