
Argila na arteterapia junguiana: conheça seus benefícios, indicações clínicas, simbologia e veja como aplicá-la na prática com seus clientes.
A argila é um material ancestral. Desde os primórdios da humanidade, moldamos a terra para criar, proteger, guardar e significar. No contexto da Arteterapia Junguiana, a argila vai além do simples ato de modelar: ela se torna mediadora entre inconsciente e consciência, revelando imagens internas que muitas vezes não encontram caminho pela palavra.
No método MAP ? Movimento, Arte e Palavra, que desenvolvi a partir da minha experiência clínica, a argila se destaca por integrar corpo, gesto e expressão simbólica, permitindo que o cliente toque suas emoções com as próprias mãos.
Para Jung, o inconsciente se comunica através de imagens primordiais, arquétipos que carregam memórias coletivas da humanidade. A argila, como material, evoca diretamente o elemento terra ? símbolo do enraizamento, da matéria-prima, da origem e do retorno ao essencial.
Ao tocar a argila, o cliente se reconecta ao seu próprio corpo, à sensorialidade e à experiência tátil, permitindo que conteúdos profundos venham à superfície. A plasticidade da argila representa, simbolicamente, a possibilidade de transformação: aquilo que parecia rígido pode ser moldado, refeito, ressignificado.
?A psique não fala com palavras, mas com imagens.?
? C.G. Jung
O uso da argila na arteterapia potencializa:
A argila é especialmente indicada em casos de:
?? Contraindicações: é importante cautela com clientes em quadro psicótico agudo, ou aqueles com aversão intensa ao contato tátil. Nestes casos, outros materiais podem ser mais adequados para não gerar angústia desnecessária.
Caso fictício, inspirado na prática clínica.
M., 42 anos, buscou arteterapia para lidar com um processo de luto após o término de um casamento de 15 anos. Nas primeiras sessões, sua fala estava contida, pesada, e os desenhos mostravam linhas retas, rígidas e monocromáticas.
Na quinta sessão, propus o uso da argila. Ao tocar o material, M. hesitou. Pedi que respirasse profundamente e deixasse que as mãos guiassem o movimento, sem intenção definida. Aos poucos, começou a amassar a argila com força, rasgando e recompondo fragmentos. Silenciosamente, modelou algo que lembrava um coração partido ao meio.
Quando perguntei sobre a forma criada, M. chorou. Disse que ?não sabia que ainda doía tanto?. A partir dali, abriu-se um espaço para trabalhar a integração do sentimento de perda e a possibilidade de reconstrução. Nas sessões seguintes, as formas foram se transformando, passando de fragmentos quebrados para pequenas sementes modeladas com cuidado.
No MAP, o movimento das mãos, a materialização simbólica e a fala final de M. formaram um tríptico terapêutico: corpo, imagem e palavra atuando juntos para reorganizar a experiência interna.
Na visão junguiana, os processos expressivos são caminhos para nos aproximarmos do Self, o núcleo integrador da psique. O trabalho com argila, ao permitir que formas interiores emerjam espontaneamente, pode facilitar encontros profundos com aspectos sombrios e luminosos do indivíduo, favorecendo a individuação.
A argila nos lembra que somos feitos da mesma matéria que moldamos: plásticos, transformáveis e infinitamente criativos.
A argila, quando utilizada com intenção terapêutica e sustentação simbólica, oferece um espaço seguro para o cliente transformar conteúdos internos em imagens concretas. Ao tocar a terra, tocamos também nossas raízes, nossa história e nossos ciclos.
Se você quer se aprofundar no uso dos materiais expressivos na arteterapia, acompanhe meus vídeos semanais e conheça os cursos disponíveis no site.
Assistir aqui - https://youtu.be/iQcU_ZJfySA